domingo, 23 de abril de 2017

O Brasil de São Brandão. O brasil na Lenda e na Cartografia Antiga - Gustavo Barroso


"Brasilia autem praestantissima facile totius Americae pars penitius introspecta, jucunda in primis salubrique temperie excellit usque adeo, ut merito cum Europa atque Asia de clementia Aeris, et Aquarum certet. Quippe cum neque Solis calore haec terra torreatur, nec squalore vel aquarum penuria resiecetur, nere frigore violetur, sed rose perpetuo et imbibus multis atque frontibus irrigetur, feracissimam esse, multaque illic tempestive nascantur oportet".
   Guilherme Pinzon

O nome do Brasil

   Os brasileiros aprendem, em geral, que o nome de sua pátria, primeiramente chamada Vera Cruz, e, logo depois, Santa Cruz, foi mudado no de Brasil por causa da madeira de tinturaria assim chamada, madeira cor de brasa, cujo comércio atraiu de início, às suas plagas, aventureiros lusos, franceses, anglos e flamengos, sob a batuta da judiaria de Lisboa e Amsterdam.

   A tradição e o hábito moldaram em bronze essa fácil explicação, de maneira que hoje é muito difícil, senão impossível, destruí-la.

   Varnhagen quer que, comemorando a festa que, no princípio do mês imediato, devia celebrar a Santa Madre Igreja, Pedro Alvares Cabral tivesse dado o apelido de Vera Cruz à ilha onde desembarcou.

   Não longe de Porto Seguro, a primeira feitoria lusitana se denominou Santa Cruz: "desta primeira
Fernando de Noronha, seja dito entre parênteses, era grande homem de negócios. Armava naus que acompanhavam as frotas da Índia, colhendo os frutos da mercancia à sombra de navegadores e guerreiros. Tinha ligações internacionais, tanto que, antes de D. João III lhe dar foro de fidalgo e carta de brasão d'armas, o Rei da Inglaterra lhe concedera o uso de meias-rosas heráldicas.

   Em 1505, D. Manuel o Venturoso ainda não aplica a palavra Brasil. Em carta ao Rei de Espanha, datada de março, dizia que outros chamavam à terra de Santa Cruz - Terra Nova ou Novo Mundo. A edição do Ptolomeu de Roma, de 1508, marcava: terra sanctae crucis sive mundus novus, terra sancte crucis é ainda a legenda do portulano Egerton, de 1510.

   Até meados do século XVI, a cartografia repete em relação ao Brasil, ou, melhor, à parte meridional da América as designações de mundus novus, novis obis e terra santae crucis. Alguns mapas rotulam a parte septentrional como hispania major. Outros apontam a parte sul como regio brazilis. Outros, mais raros, ostentam: terra incógnita.

   A palavra Brasil amiúda-se ao aproximar-se a metade do século: no mapa de Baptista Agnese, de Veneza, de 1536 — Brazil; no mapa de Sebastião Munster, de 1540, Brazil sive novus orbis.
a citada edição do Ptolomeu de Roma, de 1508, é muito curiosa a adulteração latina da toponímia da então pouco conhecida região brasílica, o que serve bem para mostrar a que metateses e deformações pode estar sujeito um nome geográfico que venha dos tempos antigos até nossos dias, ora pela grafia, ora pela aproximação ou similitude com outras denominações, embora de terras as mais afastadas, ora pelas modificações através da tradição oral.

   Cananeia, por exemplo, figura ali como Cananor, porque havia Cananor, que se parecia com Cananeia, nas Índias Orientais, e era mais conhecido. A baía do Rio de Janeiro é o rivulus de oreferis, talvez confusão prosódica da terminação de januarius com aurus, dando a ideia de ouro, bastante para deslumbrar as mentes ambiciosas naquela época de aventuras. O cabo de Santo Agostinho é o cabo de Santa Cruz. A Baía de Todos os Santos transforma-se em Abatia ominium sanctorum ou Abadia de Todos os Santos. Outra confusão memorável!

   Pois bem: nessa tábula do Ptolomeu de Roma está o rio de Brasil e nele Silvestre Rebelo vê uma prova de terem os portugueses das primeiras frotas, senão os da própria esquadra de Cabral, levado de retorno o pau-brasil.

   Sabe-se que Pedr'Alvares trazia na Armada, como língua e conhecedor das cousas do Oriente, o judeu levantino-polônio, convertido por mera conveniência

ao cristianismo, Gaspar da Gama, mais tarde Gaspar de Almeida, vulgo Gaspar da Índia. Levado ao Reino por Vasco da Gama era conselheiro e informador de D. Manuel. Vinha recomendado de modo especial no Regimento dado a Cabral e pago a dez escudos por mês.

   Sabe-se mais que os descobridores, naturalmente em companhia ele, que procurou entender a fala da indiada, desembarcaram à margem dum rio, onde cortaram lenha. É provável que, então, tenham encontrado a madeira de precioso âmago rubro, possivelmente logo identificada por esse técnico judaico em assuntos do Oriente. O certo é que, já em 1501, na volta de Cabral de sua viagem redonda à Índia, se formou o consórcio ou trust dos cristãos-novos, destinado a explorar o monopólio da anilina vegetal.

   Na sua legenda pinturesca, ao gosto da cartografia coeva, a tábula mostrava claramente que o nome Brasil era dado ao tal rio por causa do pau-de-tinta: insunt margaritae, atque auri maxima copia. Archuntur a lusitanis ligna brasil, alias verzini, et cassiae, - Aqui há pérolas; ali, grande abundância de ouro. Os lusitanos acharam o pau-brasil ou verzino e a canafístula. Pedro Mártir de Angleria grafa cassiafistula.

   Antes do Ptolomeu de Roma, antes portanto de 1508, não se via a denominação Santa Cruz, mas a de Vera Cruzverbi gratia nos planisférios de Cantino
e de Canerio, em 1502 e 1505. Cantino foi embaixador do duque de Ferrara, Hércules deste, em Lisboa. Seu planisfério, achado por acaso na loja dum salsicheiro, foi salvo da destruição.

   Em 1511, pela primeira vez a América do Sul se ostenta num mapa com o nome de Brasil: o planisfério de Jerónimo Marini, conservado na Biblioteca do Itamarati.

   O Waldseemüller de 1516 diz: brasilia sive terra papagalli. O nome de terra dos papagaios teve grande voga. Menos belo do que o que se atribui, com ou sem razão, ao indígena: pindorama, Terra das Palmeiras. La terra del papagá, diz uma carta de Pascuáligo, escrita de Lisboa. Quem primeiro deu esse nome ao Brasil parece que foi Pixani: la terra de li papagá. Muitos portulanos traziam sobre o Brasil araras e papagaios coloridos.

   Em 1519, o mapa de Vesconte di Maiollo ainda não tinha Brasil e somente Santa Cruz; mas o de 1527 já o traz: terra sancte crucis de lo brasileTerra de Santa Cruz do Brasil, naturalmente onde dá o brasil.

   É quase certo que o primeiro documento oficial em que se vê escrito o nome Brasil dado ao nosso país seja o alvará de 1530, mandando Martim Afonso de Souza achar ou descobrir na Terra do Brasil. A palavra Brasil aparece isolada, distinta, na diplomática e na cartografia entre 1513 e 1530.
O patronímico brasileiro, ao invés de brasiliense, forma correta, indica o que se ocupava na extração ou trato da madeira, não o que nascera na terra. Esta tradição ainda se conserva no sentido com que se continua a aplicar em Portugal o nome de brasileiros aos portugueses que regressam do Brasil, onde trabalharam e se enriqueceram. Em 1551, quando os primeiros índios se fizeram admirar na Europa, os franceses lhes chamaram com propriedade brisilians, de onde, mais tarde, brésiliens.

   Já em meados do século XVI, a palavra Brasil se tomara de uso corrente para designar nossa terra, tendo-se perdido de todo o da expressão primitiva — Santa Cruz. O de Vera Cruz quase morrera ao nascer. Antonio Galvão escrevia em 1563: "No ano de 1500, à entrada de março, partiu Pedralvares com 13 velas, com regimento que se afastasse da Costa d'África para encurtar a via. E, tendo uma nau perdida, em sua busca perdeu a derrota, e indo fora dela toparam sinais de terra, por onde o capitão-mor foi em sua busca tantos dias que os da Armada lhe requereram que deixasse aquela porfia, mas ao outro dia viu a costa do Brasil".

   O documento é interessante pela expressão costa do Brasil, a mesma que se lê na carta de marear de Pedro de Medina, de Sevilha, datada de 1552. costa do Brasil e rio de Brasil surgem muito antes da palavra isolada Brasil, como deixando clara
a relação entre o acidente geográfico e a existência nele da madeira de cor.

   Outras cartas da mesma época mostram: Brasillie Regio. Umas até o separam do continente sul-americano e formam com ele como que um continente antártico. Afinal, o atlas de Lazaro Luiz, de 1563, marca isoladamente: brasill.

   Nada mais curioso e interessante, portanto, do que estudar detidamente, através da abundante documentação que existe, a vida dessa palavra Brasil, anterior, como veremos circunstanciadamente, ao descobrimento da costa brasileira por Pedro Alvares Cabral e talvez provinda também de outra fonte que não só a madeira do miolo cor de brasa, a qual, de longa data, genoveses, venezianos, pisanos e amalfitanos traziam do Oriente com as especiarias e tinha, na indústria europeia de tecidos, o mesmo relevante papel das anilinas alemãs recentemente.

   Era a púrpura vegetal árabes e persas iam-na buscar, com as monções, em Java Maior e Java Menor, nas inúmeras ilhas do antigo e esplendoroso Império Sumatrense de Çrivijaya, destruído no século XIII, do qual as magníficas ruínas de Bali, envoltas nas enrediças da jángala, ainda agora atestam a fortuna e a grandeza.

   O encontro, em abundância, deste lado do Atlântico do pau-de-tinta transferiu seu comércio das partes do Oriente para as do Ocidente, através do antigo
Mar Tenebroso, cujos mistérios Colombo e Cabral haviam desvendado. O nome cristão de Santa Cruz apagou-se diante do nome prático e comercial de Brasil, porque também este envolvia, como veremos pela documentação a seguir, poderoso elemento espiritual, que representava um antigo desejo, um velho anseio da alma humana vindo dos mais remotos tempos.

   Os cronistas, os cosmógrafos e os cartógrafos não podiam sentir e compreender isso, porque não dispunham do abundante conjunto de documentos de que hoje dispomos. Uns atribuíram, pois, a mudança às artes do demônio, cioso de riscar dos mapas o nome da Cruz, protestando indignados contra o fato. A maioria, porém, como Osorius, limitou-se ao seu simples registro: in hac terra, quam capralis sang tae crucis nomine celebrari voluit, quam nunc brasiliam appellant, nesta terra em que Cabral quis celebrar o nome de Santa Cruz e agora se chama Brasil.
II

   As ilhas do Mar Tenebroso

   Antes de verificada por Cristovam Colombo a existência das terras americanas, antes do achado de Cabral, a imaginação dos geógrafos, cosmógrafos e cartógrafos, mesmo a dos navegantes, árabes, mouros e cristãos, ajudada de antigas lendas e tradições, cujas raízes mergulhavam no fundo dos séculos, povoara o Mar Tenebroso de ilhas misteriosas.

   Era necessário encher o espaço que devia mediar entre a Europa e a Líbia, dum lado, o Cipango e o Cataio, do outro, entre o Ocidente e o Extremo Oriente, embora muitos o calculassem muito diminuto em relação ao que realmente é.

   O mar que ali se estendia era o oceano defeso de Onomácrito o Ateniense, o mare tenebrosum dos latinos. As ilhas, segundo Eusebio, surgiam para além da Bretanha, povoadas de demônios que excitavam terríveis tempestades e venciam os homens da mais rija têmpera e da mais fria coragem.
Pelas cartas, mapas-mundo e globos do tempo se vê que a América nem era suspeitada. Ignorava-se em absoluto a chegada dos normandos à parte setentrional do continente. Nos mais antigos mapas-mundo, a única cousa que de verdade se pode bem reconhecer é a configuração do Mediterrâneo. O de Cosmas Indicopleustas, por exemplo.

   Cosmas foi um mercador de Alexandria que acabou monge e morreu no meado do século VI. Viajou muito. Esteve na Etiópia e na Tapobrana. Escreveu a Topographia Christiana, na qual refuta com empenho a heresia da esfericidade da terra e da existência de antípodas, de acordo com Santo Agostinho, Lactancio, São Basilio, Santo Ambrosio, São Justino Mártir, São João Crisóstomo, São Cesario, Procopio de Gaza, Severiano de Gábala, Deodoro de Tarso, Eusebio de Cesaréa e outros luminares da ortodoxia.

   Todavia, Gesenius e Wilson são de opinião que muitos doutores da igreja admitiam a ideia dum grande continente além-mar, vinda naturalmente da influência que deixara nos espíritos a Atlântida de Platão.

   A revelação dos sacerdotes egípcios a Solon de que nove mil anos antes tinham vivido num vasto país do Oceano, para lá das Colunas de Hércules, povos felizes, de brilhante civilização, que empregavam metais preciosos e se regiam mediante sábias
leis, governados por soberanos descendentes de Atlas, filho de Clito e de Poseidon ou Netuno, fizera seu caminho pelo tempo além. Esses povos haviam conquistado as margens do Tirreno e colonizado o Egito, mas recuaram batidos pelos primitivos atenienses.

   Entrando num período de decadência e de corrupção, os deuses os castigaram com uma catástrofe sem par, que os destruiu com a água e o fogo. O Mar de Sargaços, na opinião de Platão, marcava o lugar onde se afundara para sempre a gloriosa Atlântida.

   Segundo Teopompo de Chios pôs à boca de Sileno, na narrativa de Eliano, no fundo do oceano, ao poente, ficava a Merópida, região feracíssima, banhada pelos rios da Alegria e da Tristeza, cujas águas envelheciam ou remoçavam os que as bebiam. Além da Merópida, era o Anostos, o Abismo, o "Ermo que só Deus conhecia", na expressão do Anônimo de Ravena, contemporâneo de Santo Isidoro de Sevilha no século VII.

   Toda a antiguidade clássica acreditara na existência desse continente ocidental. Os fenícios chegaram mesmo a procurá-lo. Segundo o De Mirabilibus Auscultationibus, atribuído a Aristóteles, e o Périplo de Scylax de Karyanda, os cartagineses de Gadés (Cádiz), buscando essa terra para o oeste, encontraram o Mar de Sargaços, onde as vegetações marinhas e os detritos empeciam a marcha das galeras. Tiveram medo do Abismo e voltaram.
Estrabo, Deodoro Siculo e Macrobio referem que esses mesmos gaditanos acharam no meio do oceano, para a parte do poente, uma ilha grande, rica, fértil, de clima delicioso. É a famosa viagem de Himilcon, contada em Rufus Festus Avienus. Atravessando o Mar de Sargaços, esse navegador púnico foi parar nas ilhas que denominou Oestrumidas ou Estrimnias, sobre cuja existência seus compatriotas guardaram o maior segredo.

   Plutarco fala duma terra ocidental regida pelo próprio Kronos, pai dos deuses. Era a Ogigia felicíssima, que demorava ao poente. Após ela, havia a terra firme. Luciano de Samosata assegurava que se podia ir de Cádiz às Índias sem parar, com a condição de não vagar pelas ilhas intermediárias. E Sêneca como que entrevira a própria América no fundo desse mistério que preocupara tantos autores da antiguidade.

   Não se pode ter a menor dúvida lendo no ato II da Medéa:

   "(...)Venient annis

   Saecula seris quibus Oceanus

   Vincula rerum laxet, et ingens

   Pateat tellus, typhisque novos

   Delegat orbes, nec sit terius

   Ultima Thule
(...)
"Tempo virá, no decurso dos séculos, em que o Oceano alargará a moldura do globo para descobrir ao homem uma terra imensa e ignota; o mar nos revelará novos mundos e Tule não será mais o limite do Universo..."

   Foi ainda Sêneca quem afirmou que o oceano estava semeado de terras ferazes: "Fertiles in Oceano jacere terras".

   Tule, a Tuly dos geógrafos árabes, identificada por alguns autores com as Feroe, com a Noruega, com a Jutlândia ou com a Islândia, era a ilha ou a terra mais avançada no oceano avistada por Pitéas, o marselhês.

   Adivinhavam-se outras ilhas ainda mais misteriosas. Indicavam-nas como boiando à face inquieta e imensa do Atlântico, para o ocidente, mais ao norte, mais ao sul, mais perto ou mais longe, sem pouso certo, ao sabor das imaginações e dos informes imaginosos. Criando-as, afirmando sua existência, como que a mentalidade humana preparava as alpondras da áspera travessia do mare-magnum. As que mais tarde se encontraram foram servindo de escalas para as longas navegações em busca de passagem para o oriente, pelo oeste, pelo noroeste e pelo sudoeste.

   Entre essas ilhas misteriosas e lendárias enumeram-se, como principais, as seguintes: Antilia, Stocafixa, Royllo, Man Satanaxio ou Mano Satanaxio, de Salomão, Mariéniga, Drogeo, Não-Encontradas,
de São Brandão, do Oro, Cabreira, da Ventura, Górgadas, Eternas, Sanzorzo ou São Jorge, do Corvo Marinho, Yma, do Homem e da Mulher, Fortunadas, das Sete Cidades, Essores, Montorio, dos Pombos, Verde, Tibias, Tausens, Maida, Cerné e do Brazil ou Brasil, esta última com incontável número de formas gráficas e em tantas posições que justificam o apelido que lhe foi posto de "ilha movediça".

   Não é muito fácil a identificação dessas ilhas, na maioria sem existência real. Façamos, porém, um esforço para estudá-las uma por uma e, assim, ficaremos mais a par dos segredos da antiga geografia.

   Idrisi calculava em 27 mil as ilhas que deviam existir no oceano Atlântico! Ibn-el-Uardi assegurava serem tantas que só Deus as poderia contar!

   Antilia

   Antilia é a que mais comumente se apresenta como uma espécie de anúncio das Antilhas que Cristovam Colombo encontraria antes de atingir a costa do continente americano, que supunha ser o Cipango ou Japão, o Cataio ou China.

   Seu nome, que continua a viver ligeiramente modificado nos mapas atuais, provem da deformação do vocábulo Atl-an-tis, a Atlântida, na autorizadíssima opinião do erudito Cronau. Outros autores nele querem ver simplesmente a expressão ilha
anterior — ante-ilha. Ainda outros o explicam como corruptela do árabe El-Tennin, a Ilha do Dragão. Egerton grafa Antiglia.

   As cartas antigas dão-na quase sempre com idêntica configuração, quase retangular. Tem, pois, um tipo cartográfico relativamente fixo que bem a distingue de todas as outras, às quais falece esse requisito. Vemo-la assim na Carta da Biblioteca de Weimar, de 1424; na de Andréa Bianco, de 1436; e ainda no Globo de Martin Behain, de 1492.

   Não resta dúvida que a Antilia perpetuava na cartografia medieval e do Renascimento a tradição milenária da Atlântida, cuja história fabulosa os hierofantes egípcios contavam aos visitantes ilustres que indagavam do passado da civilização do vale do Nilo e Platão nos descreveu nos seus diálogos imortais para que sobre o assunto corressem até nossos dias rios e rios de tinta.

   As lendas peninsulares diziam que, ao tempo da conquista da Ibéria pelos sarracenos, nela se haviam refugiado seis bispos guiados pelo bispo da cidade do Porto. Daí a apostila do Globo de Martin Behain: "Contam que, no ano de 739 após o nascimento de Cristo, quando toda a Espanha foi conquistada pelos pagãos da África, um arcebispo do Porto (Portugal) e mais seis bispos e outros cristãos, homens e mulheres, fugiram embarcados e foram povoar a ilha da Antilia, denominada Septe Citades". Daí
as palavras de Toscanelli a Fernão Martins: "Antil que vosotros lamais de Siete Ciudades".

   Os geógrafos antigos pareciam ter a mania de defender a aproximação dum continente por meio duma cortina de ilhas ou duma grande ilha isolada. A Antilia antecedia as costas do Extremo Oriente, pois não se pensava na existência da América, costas essas que eram por alguns cobertas pelas famosas ilhas Syla, cuja existência em face da China foi afirmada durante séculos.

   Frei Gregorio Garcia é de opinião que foram os portugueses os que espalharam a história da ilha Antilia ou das Sete Cidades como sendo aquela que achara, segundo narram Aldrete e outros, o piloto Alonso Sanchez de Huelva ou de Ullôa, o primeiro a dar a Colombo notícia das terras incógnitas do ocidente.

   Esse Alonso ou Afonso Sanchez carregava no seu navio açúcar da ilha da Madeira para Cascais. Com o barco desarvorado por uma tormenta, fora dar a uma terra desconhecida ao oeste. De regresso, após mil peripécias, chegou moribundo ao Funchal. Há muita controvérsia sobre a veracidade dessa história.

   De fato, as narrações sobre a existência da Antilia começam a ser espalhadas na Europa no século XIV.

   No seu livro Das Grandezas e Cousas memoráveis da Espanha, Pedro de Medina situa-a a 36°, 5
de latitude, dizendo que, às vezes, se avista de longe e outras desaparece. Junta-lhe a lenda dos sete bispos.

   Em geral, a Antilia vem isolada do nome de Sete Cidades, na cartografia, o qual designa uma ilha à parte.

   Stocafixa

   O nome de Stocafixa é simples corruptela de Stock-fish, o bacalhau. A ilha corresponde, pois, necessariamente a Terra dos Bacalhaus ou Terra Nova, de que se tinha conhecimento antes do descobrimento da América e antes mesmo do do Brasil, senão pelas viagens dos normandos, ao menos pela dos Corte Real.

   Está muito claramente assinalada na Carta de Andréa Bianco.

   O cronista Galvano denomina-a Baccalaos, o que é mais do que suficiente para identificá-la. É a Y dos Bacalhas da Carta de Pedro Reinel, de 1505.Bacallaos ou Terra Nova Corterealis registra a Carta de Marear de Pedro de Medina. Bacalas lê-se na chamada Carta de Leonardo da Vinci. Terra Nova dos Bacalhaus concluem, afinal, documentos mais recentes.
Royllo

   A ilha de Royllo é figurada em algumas cartas como tendo 12 léguas de comprimento e dez de largura, paralela à Antilia, a 20 léguas para oeste. Em outras vem sem medidas e em variada posição. Na de Bartolomeo Pareto, apresenta a forma dum escudo pintado de vermelho.

   Pouquíssimas são as indicações que se encontram a seu respeito.

   Não será porventura Royllo resultado de má leitura ou adulteração da I. Rocho que aparece na Carta de Gracioso Benincasa, de Ancona, de 1482?

   Man Satanaxio

   Man SatanaxioMan Satanaxion ou Mano Satanaxio, da Mãe ou da Mão de Satanás, segundo uns ou outros. Figura entre as ilhas lendárias do Atlântico setentrional, em portulanos e cartas geográficas ou marítimas antigas, uma ilha de Man ou de Mam.

   O primeiro exemplar cartográfico a assinalá-la é, parece, a Carta Catalã de 1375; e, Com os dados por esta fornecidos, poderíamos fixar a situação primitiva da ilha, em carta moderna, como um ponto geográfico que se aproximasse do cruzamento do meridiano 15° W de Greenwich com um paralelo que,
na Europa, venha a passar por Lorient, na Bretanha, na América, nas proximidades do cabo Bretão. Ficaria, assim, a ilha a umas 500 milhas ao noroeste do cabo Finisterra.

   Essa ilha lendária, porém, ao correr do tempo, variou no Atlântico das cartas antigas, tanto em suas imprecisas coordenadas geográficas, quanto em sua toponímia, certamente para, desta forma, prolongar o mistério de uma duvidosa existência ou realidade, até mesmo após o descobrimento da América por Cristovam Colombo. Atestam-no, além dos exemplares cartográficos consultados, os estudos de Kretschmer, Nordjenskiold, Stefano Grande, Fischer, Beuchat, etc.

   Pela lição de uns e de outros pode-se concluir ter sido:

   — ilha (y.° de Man ou de Mam na Carta Catalã de 1375.

   — “y" de Laman Satanaxio na Carta de Andréa Bianco, de 1436, toponímia que Nordjenskiold alterou para Ilha de Man Sto. Anastacio. D'Avezac e Humboldt deram-lhe outro nome, mas outros não lhe desmentiram a fama: Satan's hand, a mão de Satanás.

   — ilha de Man, dentre outros, nos exemplares de Bartolomeo Pareto, de 1445, e de Benincasa, de 1467, de que Fischer fez uma única
palavra — Deman e interpretou: Demoni e, daí, a "isola del demoni". Em 1570, verdade, já Abraão Ortelius dera em sua carta uma ilha — "dos demônios", junto à costa da América setentrional, entre duas outras ilhas lendárias e ainda subsistentes na imaginação dos cartógrafos: — Drogeo e Sam Brandam!

   A lenda deu-lhe sempre existência caminhando para o norte e noroeste, e nunca para sul e leste, vez no sentido de certas aventuras marítimas que a tivessem buscado e fossem revelando novas ilhas.

   Encontramos uma I. de Mam no famoso Mapa de Toscanelli, na reconstituição de Uzieni e de Peschel.

   Narravam as lendas marítimas que, nessa ilha, a mão de Satanás ou a mãe de Satanás faziam naufragar de modo misterioso as naves aventureiras que se aproximassem de suas costas rochosas.

   Essas lendas inspiraram a literatura. Há várias peças literárias a respeito, sobretudo espanholas: contos, novelas e poesias. Uma delas pinta a mão de Satanás alongando-se por baixo das ondas tranquilas e fazendo desaparecer os navios que a fatalidade trazia àquelas paragens malditas.

   Nisto se sente a reminiscência dum velho romance de Cristovam o Armênio, intitulado A peregrinação
de três rapazes, no qual se descreve uma região da Índia, onde saía do mar uma mão aberta que colhia os tripulantes dos barcos e os pescadores das praias.

   Ao lado dessa e doutras reminiscências, os desaparecimentos misteriosos de navios, que ainda hoje acontecem. No seu n.° 80, de novembro de 1938, a revista parisiense Atlantis insere a seguinte notícia: "Haverá alguma relação entre a atividade vulcânica recentemente assinalada nos Açores e os misteriosos desaparecimentos de navios, desde certo tempo, nas suas proximidades? Com efeito, o que verdade é que o jornal O Mensageiro de Atenas dá notícia de naufrágios inexplicáveis, desde algum tempo, nessas vizinhanças, tanto assim que os marinheiros declaram haver ali um caça-navios. A 14 de março deste ano (1938), o transatlântico "Anglo-Australiano" transmitiu esta mensagem radiográfica: "Vai tudo bem. Tempo ótimo. Navegamos perto dos Açores". O radiograma indicava mais as coordenadas exatas do ponto em que se achava o navio. Foi a última notícia que se teve do grande barco. Desapareceu sem deixar Vestígios. Três semanas depois, no mesmo local, o cargueiro grego "Oros Kyllini", com mar calmo, foi de súbito levantado por uma alta vaga que o partiu pelo meio. Meia hora depois reinava de novo a calmaria. Vários outros navios têm se sumido na mesma vizinhança dos Açores,
o que vem reforçar a antiga hipótese do famoso cemitério dos navios desaparecidos".

   Se no nosso tempo não deixa de ser impressionante nova tão misteriosa, imagine-se o alarme quando nos portos antigos, sobretudo na época das grandes aventuras trágico-marítimas, corriam notícias idênticas! A ilha da Mãe ou da Mão de Satanás exprimia simplesmente, de modo um tanto fantasioso, o perigo dum caça-navios, dum "cemitério de navios".

   Releva notar que, em língua celta, man quer dizer pedra. Teríamos, então, nova interpretação: a ilha da Pedra de Satanás, que poderia indicar um cachopo perigoso, cousa inteiramente plausível, originando-se a lenda da confusão de Man com Mãe e Mão.

   A ilha lendária de Man nada tem a ver, além do nome, com a ilha inglesa atual de Man.

   Depois de estudarmos com certo cuidado o assunto, somos de opinião que todos esses elementos lendários, ou não, convergiram para um resultado único, mas que o verdadeiro nome da ilha em questão é S. Atanaxio ou S. Atanagio, isto é, Santo Atanaxio e não Santo Anastacio, como queria Nordjenskiold. A péssima grafia das velhas cartas foi que se prestou às várias transformações.

   Na Carta de Becaria, se lê tudo ligado: Satanagio, de onde para Satanás é um pulo. Há outras leituras como Sarastagio e Saravagio. Foi o sábio livreiro Formaleoni quem, consultando as cartas da
Biblioteca de São Marcos, leu em primeiro lugar: de la Man Satanaxio, e traduziu: Ilha da Mão de Satanás. É que, vizinha, sem dúvida, figurava a Ilha de Mana do veneziano Domenico de Mauro Negro, sob o título de la Man, como se vê distintamente na Carta de Andréa Bianco.

   Ora, Formaleoni ligou a ilha de la Man à ilha de S. Atanagio, e nos deu a legenda para uma ilha só de la Man de Satanagio, transformando a ilha de Santo Atanasio em ilha da Mão de Satanás.

   Salomão

   Na ilha de Salomão, segundo diziam outras lendas, jazia milagrosamente conservado, tal qual como se fora vivo, o corpo do grande e sábio rei de Judá, dentro dum esquife de vidro guardado num castelo maravilhoso, cujas altas torres dominavam o oceano.

   Esse relato provinha dos geógrafos e navegadores árabes que amiúde se referiam às ilhas de Suleyman ou Salomão, espalhando-as pelo oriente, ao sabor de sua fantasia.

   Era talvez ainda um derradeiro eco da miragem áurea da antiga Ofir, tão decantada pelos poetas, a Terra Áurea de Flavio Josefo, a Chersoneso Aurea de Ptolomeu.

   A ilha de Salomão aparece em reduzidíssimo número de cartas antigas e são bastante raras as referências que se podem encontrar a seu respeito.
Mariéniga

   A ilha de Mariéniga surge em diversos mapas antigos sem a menor legenda ou referência explicativa. Nenhuma também se encontra na vasta bibliografia do assunto.

   O nome Mariéniga deve ser uma adulteração. É incrível a maneira como se modificava a toponímia na cartografia antiga, ao sabor dos descuidos dos copistas, das lições erradas e das mais absurdas interpretações. além disso, os cursivos, unciais, góticos e semi-góticos dos portulanos manuscritos, das pomas ou globos, prestavam-se a todas as hermenêuticas.

   Vejamos alguns exemplos curiosíssimos:

   Na Carta de Johannes Schöner, a Baia de Todos os Santos passa em mau latim, — Abatia Omnium Sanctorum, a ser a Abadia de Todos os Santos, associação da ideia dos santos com a de abadia através da grafia de alguns mapas antigos: a Baia de todos os Santos ou abaia de todos os Santos, como no de Juan de la Cosa.

   A ilha de Fernando de Noronha chamou-se antes ilha de São João e, ao princípio, ilha da Quaresma. Pois bem, da palavra Quaresma, manuscrita em cartas e portulanos, Harrisse e Stevenson deduziram esta incrível lição: Anaresma.
Encontra-se no Mapa de Kunstmann II a ilha de S. Maria Dagoodia e, no de Vesconte di Maiollo, S. Maria de Goardia. Pergunta-se: será Santa Maria da Guarda, da Aguada ou da Agonia? Pois Sta. Maria de Gratia, isto é, da Graça, não acabou na cartografia como S. Madhna de Gratia?

   O nosso cabo de Santo Agostinho tem em alguns mapas antigos o nome de cabo de Santa Cruz, grafado deste jeito: C. Ste. Crucis. No Ptolomeu de 1520, a má leitura e a má cópia o transformaram em cabo das Sete Cruzes!

   A Marina Tubaro ou Marina Tubalo de Pinzon se transmudou em Marinatambal e Mariatambal, em Martin Behain e Waldseemüller, o Ilacomylus. Trinidad tornou-se Rindat em Egerton. Pernambuco acabou Fernambouc e Fernambourg para os franceses.

   Quem, sem o socorro da história, será capaz de reconhecer no grego Karchédon o nome púnico Karthu-Hadath Thiphadath, deformado em Cártago pelos romanos?

   O exemplo do que se passou com a ilha de Santo Atanasio que acabou sendo de Satanás é concludente.

   Podia-se escrever uma obra especial sobre as adulterações de nomes geográficos. Encontrar-se-iam cousas interessantíssimas. Atente-se para isto: a ilha Ondrion de Ptolomeu, a Pluvialia de Sebosus, foi-se transformando desta maneira: — Ondrion,
NorionEmbrionaUmbrionaMembriona e Beion! A Ninguaria do mesmo Sebosus, desta: — NinguariaNincariaNimboraliaNivallisInvallis e Vinaria.

   Diante disso, fica no ar a pergunta: que avatar de que nome será Mariéniga?

   Drogeo

   Esta ilha assinalada em alguns autores também de difícil identificação.

   O veneziano Antonio Zeno é o primeiro a referi-la, situando-a ao norte. Diz que era povoada por selvagens de alta estatura, nus e antropófagos, que tinha templos ornados de ouro e prata, o que contrasta com os tais selvagens, e que um pescador frislandês (islandês) nela fora ter por acaso, passando lá 13 anos.

   No célebre mapa existente na Biblioteca Real do castelo de Windsor, atribuído a Leonardo da Vinci, a América é apresentada como uma grande ilha no meio do Oceano Ocidental. Entre a América e as costas do Cataio, está a ilha Drogeo.

   No Atlas do Ptolomeu de Roscalli, de 1561, surge a sudoeste das Antilhas, mais como uma ponta do litoral sul-americano do que propriamente como uma ilha. Como nessa região algumas cartas assinalavam, nos pântanos de Pária, a Boca del Drago, é muito
possível vir o nome Drogeo, tão abstruso e inexplicável, da má leitura, má cópia, confusão ou adulteração da palavra Drago.

   Também é possível que provenha, em primeira mão, de má leitura da palavra Eugéa, a Ilha Boa dos gregos. Pode ainda ser a Ilha do Dragão a que se referem os geógrafos árabes sob os nomes de El Motaschkin ou El Tennin.

   É quase impossível sair do âmbito estreito dessas suposições.

   Não-Encontradas

   As Não-Encontradas ou Nunca-Encontradas fugiam à aproximação dos nautas, que somente percebiam no recuo do horizonte seus vultos enfumaçados.

   Eram as Ilhas Errantes ou Invisíveis da antiguidade clássica, nascidas da contemplação das miragens, ou reminiscência, sem dúvida, daquelas Simplégadas movediças e entrechocantes, ora aqui, ora ali, no meio das quais passou audaciosamente, empunhando o leme e animando os argonautas, o herói Jasão, quando, no navio "Argus", feito dos carvalhos de Dódona, que falava e profetizava o futuro, andou desafiando perigos em busca do Velocino de Ouro.

   Entre as ilhas Não-Encontradas, enumeravam a de São Brandão, porque muitos já a haviam procurado
sem conseguir ao menos avistá-la. desde 1526, os navegadores peninsulares a buscavam pela vastidão ignota do Atlântico.

   Os primeiros foram Fernando Fraga e Fernando Alvarez. Depois, Perez de Grado, Fray Lorenzo Pinedo e Gaspar Perez de Alcorta. Em 1721, ainda Gaspar Dominguez. No tratado de Évora, pelo qual Portugal cedeu à Espanha os direitos que porventura tivesse sobre as Canárias, a ilha de São Brandão denominada textualmente: Não-Encontrada.

   Por que essa referência?

   Porque no século XVI o rei de Portugal cedera ao piloto Perdigão a ilha de São Brandãose a encontrasse.

   A lenda dessas ilhas Não-Encontradas era antiquíssima. Já no século XII, Honorio de Autun contava, no seu famoso Imago Mundi, que precedeu de tanto tempo o de Pedro de Aliaco, da existência, no seio do oceano, duma ilha agradável e fértil, descoberta por acaso e, depois, procurada infatigavelmente sem o menor resultado. Mergulhara novamente no mistério de que um predestinado a tirara um dia. Parecia para sempre sumida, tanto assim que o venerando bispo lhe dava o nome de Ilha Perdida. É curioso também que a identificasse com a ilha de São Brandão.
São Brandão

   A ilha de São Brandão recordava aquela "ressoante de sinos sobre o velho mar" que o santo fora evangelizar, partindo da Verde Irlanda, na época heroica da conquista espiritual do Ocidente pelos monges cristãos.

   Há todo um vasto ciclo de lendas a seu respeito. É uma das ilhas da Fortuna, da Felicidade, do Paraíso Terreal.

   Estudá-la-emos especialmente em capítulo à parte.

   Oro

   A ilha do Oro seguramente resulta duma confusão toponímica e duma intercorrência de lendas.

   Da confusão provieram as ilhas de Huevo, isto é, do ovo, depois do Oro. Decerto da má leitura do "V" pelo "R" e vice-versa. Como em geral nas pequenas ilhas há abundância de ovos de aves marinhas, o nome nada tem fora do comum.

   No Mapa de Andréa Bianco, a adulteração se fez noutro sentido, ainda mais explicável: Ilha do Lobo, de que proveio Ilha de L'Ovo. Troca natural do “V” pelo “B”.

   Quando João de Bethencourt conquistou as Canárias, em 1402, deu a uma das ilhas o nome de Ilha
dos Lobos, "Ilha de Loupes", porque a achou coberta de lobos marinhos que seus companheiros exterminaram em consecutivas caçadas. Naquela época, encontravam-se focas em abundância em tal latitude, como se pescavam baleias dentro da baía do Rio de Janeiro ainda no começo do século XIX.

   É até possível que o próprio nome de Canárias se origine desses animais. Diz Bergeron que provem de grande cópia de canas venenosas encontrada no interior das terras. Mas Plinio declara que lhe foi dado por ter imensa quantidade de cães. Nada mais fácil do que terem os antigos confundido cães com lobos marinhos ou dado a estes o nome de cães. Basta ler o que Ctesias, por exemplo, diz dos animais da Índia para se compreender essa facilidade. Eles fizeram do antílope unicórnio, descreveram o tragélafo, o manticora e o catóblepa.

   Aliás, os mais antigos geógrafos dão o nome de Canária a uma só das ilhas do grupo, talvez a que estava cheia de cães. Dela o nome se estendeu às outras.

   Essa mudança de Ilha dos Lobos ou do Lobo em Ilha do ovo e Ilha do Oro, do Ouro, é muito interessante, sobretudo quanto à intercorrência de lendas que ocorre no caso.

   Como diz Gabriel Ferrand, no tempo das navegações e das conquistas, a humanidade viveu com a "hantise des iles d'or". O ouro era a preocupação
máxima. Os herméticos e os quintessenciadores do elixir da longa vida procuravam-no nos cadinhos e retortas dos seus laboratórios ocultos. A mesma longa vida e o mesmo ouro buscavam os aventureiros heroicos pelos mares desconhecidos.

   A maior parte do ouro que, então, chegava Europa, senão todo, vinha da parte meridional de Sumatra, país aurífero por excelência, que se supunha ser a Chersoneso Aurea de Ptolomeu, tão falada, tão discutida e tão almejada.

   Árabes, hindus, persas, chinos e malaios guardaram durante séculos o segredo dessa província aurífera que toda a gente procurava. Falava-se vagamente duma Ilha do Ouro, com uma Montanha de Ouro, perdida no mistério dos mares meridionais, onde esvoaçava o pássaro Roka, o grande Simurgh, afundando navios com as pedras que largava das garras colossais.

   Era a famosa cidade de Yavakoti (Java — Coti), de muralhas, tetos e portas de ouro maciço, que, no século V de nossa era, já descrevia o Sarya Siddantha. Desde o século IV, a essa terra onde tudo era ouro se referiam monges, peregrinos e embaixadores chineses nas suas relações; navegadores, aventureiros e mercadores árabes em seus roteiros: Huekje, Fa-hien, Masudi, Sidi-Ali, Biruni, Abu-Zayd, Ibn Majid e Suleyman al Mahari. Era a Luca Veach, a Ilha do Ouro dos indonésios, infrutuosamente
buscada por Diogo Pacheco, descrita por Godinho de Eredia e Pedro de Carvalhais.

   Odorico de Pordenone, que Frei Gregorio Garcia chama Odorico de Fôrojulio, nome latino de sua cidade natal, transmitira aos ocidentais, antes dos portugueses chegarem à Índia, o eco desses fabulosos racontos de chinos, persas, árabes e turcos. Mais tarde, lusos e holandeses trouxeram maiores notícias dessa ilha de "ouro puro", como a qualificava Odorico. Figurou muito tempo com pouso incerto nos mapas da Insulíndia. Ainda na carta n° 32 do Oriental Pilot se vê marcada com esta legenda: "Ouroaccording the Dutch. Uncertain".

   Através das imaginações, esse primeiro Eldorado veio ter ao Atlântico, confundindo-se com a Ilha do Lobo, do ovo e do Oro, do mesmo modo que nos mares indonésios acabou indo morrer a ilha atlântica de São Brandão.

   Cabreira

   Capraiam do geógrafo Ravenense anônimo.

   Designação comuníssima para ilhas e lugares onde se encontrou abundância de cabras selvagens: Capri, Capréa em Nápoles, Cabrera nas Baleares.

   Nos próprios mares orientais, que é a Pulo-Cambin senão em língua malaiala Pulaw-Kambin, a Ilha das Cabras?
Ptolomeu denomina uma das Canárias — Caprária.

   Statius Sebosus coloca uma ilha Caprária a 750 milhas de Cádiz. Uma das Afortunadas, como em Ptolomeu. Alguns mapas antigos a rotulam como Chaprera e outros já adulteraram isso em Chapesa.

   Ventura

   A ilha da Ventura repisava as lendas das ilhas Afortunadas do Oeste, que estudaremos com todas as minudencias e com todo o vagar mais adiante.

   As Afortunadas são geralmente identificadas como sendo as Canárias atuais. Apostilando seu exemplar do Ymago Mundi de Pedro de Aliaco, o próprio Cristovam Colombo escreveu que "os gentios punham o Paraíso nas Afortunadas por causa da fertilidade do solo".

   Pedro Reinei, na sua Carta de 1505, dá uma Y. da Boaventura perto da Terra Nova, na altura da costa setentrional americana, de parceria com uma Y. da Fortuna, como exprimindo cartograficamente o que haviam espalhado os navegadores escandinavos sobre a felicidade das terras nórdicas.

   Encontra-se ainda em 1528 a ilha da Ventura no Portulano de Pietro Coppo de Isola.
Apresenta-se, às vezes, com a grafia de L'Aventure, o que importa numa quase confusão de Ventura com Aventura. A aventura era o gosto da época; a ventura, anseio quase igual ao do ouro, enchendo as almas.

   Há também a grafia esdrúxula Bentufla.

   Alguns autores querem que essa ilha da Ventura seja a do Faial. Porque não a Fuerteventura canarina?

   Górgadas

   Gorgonum insulis é como lhes chamam os autores latinos.

   Ali, segundo Proclés de Cártago, citado em Pausanias, Teseu cortou a horrenda cabeça da Medusa. Infelizmente se perdeu toda a história desse mui alto feito narrado por Statius Sebosus, que somente conhecemos através de Plinio.

   Nas suas notas ao Ymago Mundi, Cristovam Colombo declara que essas ilhas eram povoadas pelas Górgonas, os vorazes monstros femininos da antiga fábula.

   Alguns autores as identificam como sendo as ilhas de Cabo-Verde.

   Uns as denominam Górgadas e outros, Górgonas. Diz Deodoro Siculo que, na sua grande expedição ao Ocidente, onde cometeu tão notáveis trabalhos,
Hércules destruiu tanto as Amazonas como as Górgonas, que habitavam em ilhas.

   No seu Périplo, Hanon o cartaginês põe as Górgadas ao sul do litoral africano. É o mais antigo viajante que delas fala. Achou-as povoadas de mulheres peludas ou Gorilas, das quais, com inaudita dificuldade, conseguiu apanhar três vivas. Todas as citações e lendas a respeito das Górgonas ou Górgadas se originam da narração cartaginesa combinada com a fábula grega dos monstros femininos.

   Enquanto Hanon localiza as Górgadas ao sul do litoral da África sobre o Atlântico, Xenofonte de Lampsaca põe-nas a oeste. Statius Sebosus leva-as muito para além das Hespéridas ou Afortunadas.

   Eternas

   As Eternas representam, sob outra designação, o mito da felicidade paradisíaca tão procurado à face da Terra. Ali não se morria e uma fonte maravilhosa jorrava com suas límpidas águas a eterna mocidade.

   Quando, em plena era dos descobrimentos, o fidalgo Ponce de Leon procurou na Flórida a Fonte de Juventa, se inspirava na lenda das ilhas da Ventura e Eternas, maravilhado pelo aspecto deliciosamente incomparável do país que descobrira.

   A primeira notícia das ilhas Eternas vem nos geógrafos árabes. O Takwin-al-Boldan de Abulféda
nomea-as Djezair-El-Khalidat e quer que sejam os Açores. Ibn Fátima e Ibn Sayd distinguiam as Eternas das Afortunadas ou Djezair-Al-Seada, situadas em número de 24 entre aquelas e o continente.

   Abulféda põe as Eternas a 10º da costa africana para o oeste. Eram seis. Estavam cobertas de faróis e estátuas de bronze que indicavam ser ali o termo de todas as navegações. Sta, viator! Nem um passo adiante! As estátuas eram obra do grande Dzu-el-Qarnain, o famigerado herói dos dois cornos, o Iskender Cornudo, que o mundo muçulmano identificou sempre com Alexandre Magno e certos autores afirmam ser Ram, o Aries, o Carneiro, o Chefe dos Arias, o criador de todas as civilizações.

   Sanzorzo

   SanzorziSanzorzo ou São Jorge está identificada como sendo uma das ilhas do grupo dos Açores. Deve seu nome a ter sido descoberta na data desse santo.

   Um atlas hidrográfico manuscrito executado por Cristofalo Solego, em Veneza, no século XV, e conservado no Museu Britânico traz a lição: San Jorte.

   No Renascimento, ainda estava fresca a memória do hermetismo medieval em que as imagens de
São Miguel dominando o demônio e de São Jorge matando o dragão tinham profundo sentido simbólico.

   É possível que a designação dessa ilha atlântica tenha obedecido em alguma cousa a esse simbolismo.

   Corvo Marinho

   O nome da antiga ilha do Corvo Marinho conservou-se na geografia moderna diminuído do qualificativo: todos conhecem a Ilha do Corvo.

   Yma

   A Yma é uma ilha a que se fazem Pouquíssimas referências. Aparece nas lendas referentes às viagens de São Macuto, semelhantes às de São Brandão.

   Intitula-se, às vezes, Yma de São Macuto.

   São Macuto identifica-se com o Saint-Malô francês ou, melhor, Saint-Maclou, que deu o nome a um porto bretão. É o São Machutes de frei Gregorio Garcia, o São Maclovius latino, simplesmente São Maclovio, bispo de Aleta, na Bretanha, no ano de 560. Em algumas versões da Peregrinatio de São Brandão, São Macuto aparece como seu companheiro.

   Foi Sigeberto de Gemblours, no século VII, quem redigiu a lenda de São Malô ou Macuto, o qual encontrou no mar a ilha Ima ou Yma, onde ressuscitou
um gigante, o batizou e o tornou a adormecer na morte. Esse gigante recebeu o nome de Mildus. Foi essa lenda que, decerto, influenciou o espírito do piloto lusitano, Pero Velho, que declarou ter achado rastos de gigantes na ilha de São Brandão, onde julgava haver desembarcado no último quartel do século XVI.

   A Ima, no dizer de Sigeberto, era "semelhante ao Paraíso". São Macuto alcançara-a após sete anos de navegação e o gigante Mildus, Milduo ou Milduno disse-lhe, ao ressuscitar, que, quando era vivo, vira, "vagando pelo oceano", uma ilha que excedia a todas as outras em delícia e formosura, rodeada de muralhas de ouro que resplandeciam como espelhos!

   Temos, assim, reunidos aqui dois grandes elementos míticos que amiúde se repetem nas lendas das ilhas atlânticas: o do Paraíso Perdido e procurado, e o da Terra Áurea, da Ofir de Salomão.

   Talvez, no caso, estejamos em face de mais uma intercorrência da lenda da ilha oriental do Ouro, a Pulaw-Mas que os geógrafos e navegantes árabes chamavam Êmas ou Ymas.

   Do Homem e da Mulher

   As ilhas do Homem e da Mulher indicavam, com toda a certeza, duas terras semelhantes e próximas, quer existentes realmente, quer fantasiosas. O fenômeno
repete-se constantemente, designando acidentes geográficos — lagos, morros, montes, ilhas, pontas de terra: Dois Amigos, Dois Irmãos, Macho e Fêmea, a Freira e o Frade, etc.

   Não vemos à entrada da baía de Guanabara as ilhas do Pai e da Mãe, em obediência simplesmente a essa razão de proximidade? Não há as ilhas Macho e Fêmea, no estreito de Magalhães, unicamente pelo mesmo motivo?

   Dois Irmãos é como Andréa Bianco marca duas ilhas oceânicas em seu mapa. Sete Irmãos chamavam outrora a um grupo de sete ilhéus no mar das Índias.

   Não teve, seguramente, outra razão, senão essa comuníssima, a designação ptolemaica — Didymé, as Gêmeas.

   É bem provável que, pelo mesmo motivo, os árabes hajam dado à ilha canária de Lanzarote o apelido de Dois Irmãos Feiticeiros, porque nela se veem dois picos fronteiros e semelhantes que a lenda considera dois famosos bruxos transformados em pedra.

   Fortunadas

   A propósito das Fortunadas ou Afortunadas, e que representam uma das mais antigas, formosas e vivazes lendas da humanidade, ocupar-nos-emos mais adiante, de modo muito particular, em virtude de
sua íntima conexão, em significado, com a ilha Brasil ou do Brasil, que é a que verdadeiramente nos preocupa no presente estudo.

   Sete Cidades

   Na ilha das Sete Cidades repetia-se o derradeiro eco das famosas tradições atlantes. Ainda hoje, vive na ilha açoriana de São Miguel o nome de Sete Cidades, indicando uma aldeia à beira de pequeno lago que é tudo quanto resta de antiquíssima cratera vulcânica.

   Conta-se que ali foram destruídas por uma horrenda catástrofe sete maravilhosas cidades pertencentes ao último rei da perdida Atlântida, da fabulosa Possidonia que o fogo do céu e as águas do oceano para sempre subverteram, de modo que dela não ficasse pedra sobre pedra.

   A ilha das Sete Cidades foi uma das mais procuradas pelo oceano afora e uma das Nunca-Encontradas. Diante dessa procura e das afirmações de ser, as vezes, até avistada, tem-se a impressão de que os que asseguravam sua existência se deixavam enganar pelas vigias ou rochas que se erguem à superfície do Atlântico e desaparecem dentro de pouco tempo, o que motivou magnífico estudo do almirante francês Fleuriot de Lange.
Buscaram-na com afinco os portugueses, no século XV, bem antes que Cristovam Colombo aportasse às terras insulares da América, crente de que esbarrara na Antilha, cobertura da Ásia Oriental, que os portulanos da época punham entre 30° e 35° a oeste de Lisboa. Os portugueses confundiam a ilha das Sete Cidades com a Antilia, como, entre outros, testemunha Toscanelli. Procuravam, pois, sob outro nome a mesma cousa que Colombo, o qual nada teria feito se não fora o impulso português dado às navegações de descoberta do mundo.

   Uma Carta Régia de 1475, em que o Rei de Portugal concede licença para navegar e descobrir a Fernão Teles, prevê o achamento da ilha das Sete Cidades. Outra Carta Régia de 1486 firma contrato com Fernão Dulce, que ia a descobrir a ilha das Sete Cidades.

   Entretanto, não se poderá dizer que os portugueses fossem fantasiosos nas suas correrias marítimas. Um espírito prático os dirigia. Tanto assim que os vemos de posse do conhecimento da continuidade do continente americano muito antes que os espanhóis e outros disso se dessem conta. Quando Colombo acreditava ter chegado ao Cataio ou ao Cipango, quando se deixava levar pela ideia de haver achado no oeste o Paraíso Terreal, quando julgava achar povos cristãos na Índia, evangelizados por São Tomé, último eco da notícia dos Estados Nestorianos da
Ásia Central, os lusos, devidamente informados por suas múltiplas viagens clandestinas, já sabiam que a parte setentrional da América se ligava à parte meridional, a Terra dos Papagaios, como diz a carta de Pascuáligo.

   Essa carta de Pascuáligo é uma das revelações comprovadas do que acima se afirma. Escrita de Lisboa em 18 de outubro de 1501, relata a chegada de um navio de Corte Real, de regresso da Terra Nova, e se refere a essa ligação continental como cousa perfeitamente sabida. Ranke encontrou-a na Biblioteca Marciana.

   Como já vimos pela notícia do Globo de Martin Behain a ilha das Sete Cidades confundia-se muitas vezes com a Antilia. Também se confundia, intercorrentemente, com a de São Brandão, pois muitos afirmavam que para esta é que tinham fugido os tais Sete Bispos perseguidos pelos mouros.

   Do mesmo modo que se dizia estar na ilha de Salomão o corpo do grande e sábio Rei de Judá, na de saio Brandão os espanhóis diziam ter-se refugiado o Rei visigodo Rodrigo, após a derrota do Guadalete, que entregou a Espanha aos infiéis, e os portugueses, se ter ocultado D. Sebastião, o encoberto das profecias do Bandarra, depois de perdida a batalha de Alcácer-Quebir.

   Morta de vez a ilha das Sete Cidades pela cartografia moderna, a lenda continuou a viver e passou e
para o continente americano. Lá estão, no município piauiense de Piracuruca, sete monstruosos amontoados de pedras, singularmente mordidos pelas erosões e desgastes, que, no dizer de muitos, nada mais são do que as desaparecidas Sete Cidades da Atlântida.

   Em algumas cartas antigas, ao invés da ilha das Sete Cidades; aparece com esse nome um grupo de sete ilhas.

   Essores

   Não resta a menor dúvida que as ilhas Essores são simplesmente as dos Açores, descobertas em 1432 por Gonçalo Velho Cabral.

   Veio-lhes o nome da grande quantidade de açores (astur palumbarius) ou falcões nelas encontrados pelos seus primeiros povoadores.

   Segundo Peschel, os Açores são as mesmas ilhas Cabreras, pois o nome de Cabreira também aparece no plural em antigos documentos cosmográficos. Outros autores as consideram as Terceiras e colocam como "uma das Terceiras" a ilha Brasil ou do Brasil.

   Montorio

   Quanto a MontorioMontorius ou Mons Orius, estamos em presença de uma adulteração toponímica com uma intercorrência de lendas, como no caso da ilha de Oro.
Montorius é, decerto, corruptela de Montonis, por sua vez corruptela de Moltonis, latinização bárbara, de acordo com o hábito da época, de Moutons, carneiros. Representa a Ilha dos Carneiros de algumas versões da mirífica viagem de São Brandão.

   O grande santo evangelizador, antes de chegar ilha que, depois, tomaria seu nome e era a Terra da Promissão dos Santos, encontrou, segundo algumas versões de sua lenda, essa Ilha dos Carneiros. O geógrafo árabe Idrisi e os chamados irmãos Magrurin falam da Ilha dos Carneiros como se tivesse existência real. É a El Chanam, onde a carne dos rebanhos era amarga como fel.

   A lenda que intercorreu foi a do Monte de Ouro na ilha do Ouro, do Oriente, — a Luca Veach, a Pulo-Mas refulgente, que cegava os navegadores batida pelo sol a pino, Mons Orius, o Monte Áureo, o Eldorado, Ofir!

   Dos Pombos

   A Ilha dos Pombos consta das cartas antigas como Isola Dei Colombi ou simplesmente Colombi. Pietro Coppo de Isola grafa Columbo.

   É mais do que provável que o nome tenha vindo da abundância em alguma ilha vagamente referida dessas aves, ou da confusão de aves marinhas com elas.
Talvez a Ilha dos Pássaros a que se refere - Raça ou Djezair-El-Toiur.

   Alguns geógrafos veem nela a ilha do Pico, notável pela sua abundância de pombos selvagens.

   Verde

   A Verde é outro eco da existência de uma Terra Feliz ao Ocidente: a Verde Erin dos irlandeses, a Verde Vinlandia das Sagas, Groelândia, a Terra Verde gabada pelos normandos colonizadores. Esse pensamento se perpetuou geograficamente no nome da Ilha Verde, na costa da península do Labrador.

   A chamada Ilha Verde das Correntes sempre preocupou a imaginação dos celtas.

   É curioso que o árabe Masudi chame textualmente ao Atlântico mar VerdeTenebroso. A interferência do qualificativo verde como que é um reflexo da existência real ou imaginosa das ilhas ou terras Verdes boiando à sua face coberta de trevas e de mistérios. Tanto assim que todos os outros geógrafos muçulmanos chamam ao Atlântico — El-Bahr-Mozalam, Mar Tenebroso, ou El-Bahr-El-Zolmat, Mar das Trevas.
Tibias e Tausens

   As ilhas Tibias e Tausens são absolutamente fantásticas.

   Figuram na conhecida Carta de Juan de la Cosa, de 1500, ano do descobrimento do Brasil.

   É tudo o que existe a seu respeito.

   Seus nomes talvez venham da adulteração de topónimos árabes como Mos-Taschkin ou Tennin.

   É possível ainda que Tausens seja mera corruptela de Tarsis, um dos lugares misteriosos aonde iam em busca de riquezas para Salomão as frotas de Hiram, Rei de Tiro, seu aliado.

   Maida

   E a Maida?

   Sua grafia é bem variável. Derivam-na alguns de Man Satanaxio através de Moumainn (mal grafada), na Carta de Freducci d'Ancona, de 1497, exemplar da Biblioteca de Wolfenbuttel; outros da Ille Neome (demoni?), na Carta de Mateus Prunes, de 1553, no Atlas Kretschmer, tab. IV; das Naidas, na Tabula Oceani Occidentalis sive Terrae Novae, de 1513, Ptolomeus, no Atlas de Nordjenskiold; e MaidaMaydaMayde e Moidi, em várias cartas e lições de certos historiógrafos. Na obra Gastaldiana,
porém, constantemente aparecerá sob as formas de Mayda e Maida.

   A forma Moidi lembra o famoso Amoy ou Amoye, cuja riqueza e civilização buscavam outrora, como as duma Atlântida perdida, os peregrinos budistas da velha China. É notável em toda a parte do mundo essa procura duma região feliz, dum país ideal, dum lugar paradisíaco.

   As formas Maida e Mayda lembram a Madjidal dos árabes e persas, a Ilha doCastelo, que, com a célebre Lanka, era um dos marcos dos grandes meridianos que dividiam a Terra e serviam para os cálculos das longitudes e ladezas. Gnomon chamar-lhes-iam os gregos.

   Sobre a origem da ilha Maida somente se podem fazer suposições.

   Não será talvez a mesma Y de Maya, uma das Cabo Verde no Mapa de Juan de la Cosa, piloto de Cristovam Colombo?

   Não provirá do inglês maiden, donzela, virgem, nome que ficou num cabo e num grupo de ilhas, por causa da hagiografia cristã?

   Não será a ilha de Mayo do portulano Egerton transformada pela má interpretação da letra final manuscrita em Mayd?
Cerné

   O primeiro autor que se refere a Cern é o Cartaginês Hanon, no seu Périplo depositado no templo de Baal. Dá-lhe cinco estádios de contorno, o que equivale a cerca de 160 metros, situando-a perto da costa da Líbia.

   A de Cerné ou Kerné surge em algumas cartas à face do Atlântico. Os antigos contavam que fora devastada pelos Farusios, povos bárbaros da África. Isidoro e Dicuil chamam-lhe Gaulea, o que denota sua origem gaulesa. Outros autores a denominam Ilha dos Navios.

   É muito curioso que, tendo vindo da antiguidade clássica, acompanhe fielmente, do fim da Idade Média ao Renascimento, a ilha de São Brandão, até mesmo em sua derradeira migração, indo parar com ela no mar das Índias.

   Do Brasil

   No meio de todas essas ilhas que pontilhavam o Mar Tenebroso, a do Brasil é das que aparecem nos mais antigos documentos cartográficos.

   Começa a figurar em cartas e portulanos do século XIV, mais ou menos 150 anos antes de se descobrir a parte da América meridional
destinada a receber esse nome. Era como que uma ilha caprichosa, "movediça", que se deixava ver algumas vezes e logo maliciosamente se sumia no horizonte, se escondia nas brumas, se afundava nos mistérios do mar, a ilha Aprófitas ou Inacessível a que aludiam certos geógrafos antigos.

   Às vezes, desdobrava-se em mais de uma. Apareciam nos mapas duas e até três ilhas Brasil. "Ad brasilarias insulas", diz um velho documento: para as ilhas do Brasil.

III (Pag. 65)
   

O Brasil de São Brandão

   Desde remotas eras, os bardos gaélicos cantavam as delícias de uma Terra Venturosa no meio do Oceano, para o Oeste, que apelidavam o Macmeldo País da Eternidade, o qual havia sido visitado por vários heróis do seu ciclo de gestas: Condlé, Maldwin e Bran, filho de Tebal.

   Alguns bardos denominavam essa terra — as Ilhas Verdes das Correntes, dizendo que o bravo Gafran, filho de Aeddan, fora em sua busca e nunca mais voltara.
   O último dos heróis que havia alcançado essas ilhas lendárias e regressado deslumbrado por suas maravilhas fora o mesmo Bran, filho de Tebal. Não se pode fugir a um confronto, embora rápido, do nome de Bran com o do santo evangelizador cristão-celta Bran-dan, Bran-donius, Bran-danis ou São Brandão.
   Ele deu nome à ilha ignota, apostilada desta forma no Globo de Martin Behain: "No ano de 565

depois do nascimento de Cristo, São Brandão chegou a essa ilha, que observou maravilhado; ali ficou sete anos e, após, tornou ao seu país". Behain designa a ilha textualmente como Sand Branden. A designação se corromperia mais tarde até este ponto: Zamborondon!
   Até a época de Cristovam Colombo, a ilha de São Brandão se mantém nas cartas. Depois, começa a desaparecer a pouco e pouco. Todavia, ainda se vê no Mapa de Ortelius, no século XVI. De então por diante, some-se ou passa a surgir no Mar das Índias em companhia da antiga Cerné.
   A crença em sua existência foi tal que a procuraram mar adentro ou a identificaram com as verdadeiras. Em pleno século XVI, Thomas Nicholls declarava que a ilha de São Brandão era a mesma ilha da Madeira. No derradeiro quartel desse século, Alonso de Espinosa, governador da ilha do Ferro, nas Canárias, ouviu mais de cem testemunhas que tinham avistado a ilha de São Brandão. Nessa mesma época, declarou, não somente tê-la visto, mas nela haver desembarcado, o piloto português Pero Velho, afirmando ainda ter encontrado no seu solo pegadas de gigante, o que nos traz à lembrança a Yma de São Macuto com seu gigante ressuscitado, batizado pelo santo e, de novo, adormecido na morte.
   Por causa de afirmações do teor da de Pero Velho, Fernão de Vila Lobos, governador da ilha da Palma, andou a procurá-la em vão.O desejo de encontrar a ilha de São Brandão só esfriou após a expedição enviada em sua busca no ano de 1604, sob o comando do piloto espanhol Gaspar Perez de Acosta.

   Contudo, ainda no século XVIII, em 1721, ouvindo de alguns habitantes da ilha da Palma que se avistava uma terra para oeste, provavelmente a ilha de São Brandão, D. Juan de Mur y Aguirre, capitão general das Canárias, equipou uma expedição sob as ordens do capitão Gaspar Dominguez, que a procurou sem resultado. Foi a última tentativa de que se tem notícia.
   A Peregrinatio Sancti Brandani é uma lenda celta em latim do século IX, da qual chegaram aos nossos dias várias versões. Essa lenda teve a maior voga na Europa durante mais de 500 anos, sendo traduzida em prosa e verso em quase todas as línguas.
   Segundo os Bolandistas, São Brandão nasceu na Irlanda, no ano de 460 da era cristã. Tinha, pois, em 565, quando a lenda narra o empreendimento de sua viagem para o Ocidente, a bagatela de 105 anos! Era filho de Finloch e descendente do grande Eugenio, um dos heróis epônimos dos galeses. Fora educado no célebre mosteiro de Cuainschedriul. Aos 98 anos, fundou a cidade de Clonfert. Morreu aos 118, em 578! Sua viagem aventurosa é absolutamente diversa nos propósitos e finalidades da dos heróis celtas que o precederam. Bran, filho de Tebal ou Febal, por exemplo, foi convidado por uma linda mulher desconhecida a visitar o país de Side, isto é, o país das Fadas. Levou consigo 30 companheiros e foi dar a uma ilha povoada de mulheres, onde demorou muito tempo.

   São Brandão, não. Seu ilimitado amor ao Cristo é que o impele a ir pregar a Boa Nova aos povos ignotos.
   Pensava já em procurá-los através do Oceano Tenebroso, além do qual acreditavam os antigos irlandeses jazer a planície agradável da Morte, o Mag Meld, quando seu mestre e amigo dedicado, o abade Barintus, filho do rei Neil, lhe contou a história do monge Mernoc, o qual procurara as lendárias Ilhas Verdes das Correntes e acabara permanecendo na Ilha Deliciosa, a Terra Feliz do Ocidente.
   Barintus fizera longa e áspera viagem a fim de visitá-lo. Depois, navegara ainda mais para o poente e dera com a Terra da Promissão, destinada por Deus aos seus santos — Terra Repromissionis Sanctorum. Esta narrativa decidiu São Brandão a tentar também a aventura.
   Por que não chegaria até aonde Barintus chegara? Era a pergunta que, meditando, não podia deixar de fazer a si próprio. Escolheu 14 monges para acompanhá-lo entre os mais virtuosos e intrépidos. Após longos dias em que se prepararam com jejuns e preces, embarcaram, segundo algumas versões, em pequena nau de boa madeira, segundo outras, num barco de vime, coberto de couros curtidos. Fizeram-se de vela, afrontando a imensidão desconhecida do Atlântico, onde se guiaram pela Estrela Polar. Entre os 14 monges seletos, ia São Malô ou São Macuto, então rapazinho.

   A primeira cousa que os peregrinos encontraram foi a Grande Serpente do Mar, que, mais tarde, os relatos de Olaus Magnus popularizariam. Suscitada pelo demônio, a Grande Serpente ia tragar a nau com todos os frades, quando os anjos que os protegiam fizeram surgir das ondas outra serpe maior que matou e devorou a primeira.
   Não é de admirar esse encontro em tão priscas eras, quando lemos de vez em quando nos jornais contemporâneos notícias de monstros marinhos aqui e ali avistados pelos capitães dos barcos a vapor!
   O segundo encontro foi o de um castelo roqueiro edificado sobre um rochedo isolado, lembrando, ao mesmo tempo, o Madjidal dos orientais e aquela famosa Torre de Conam da mitologia celta.
   Mais adiante, viram a Ilha dos Carneiros, como que anunciando o anho pascal. Com efeito, a Páscoa colheu-os em pleno mar. Ficaram bastante pesarosos. Como celebrá-la condignamente no estreito e movediço taboado da nau? Não lhes ofereceria Deus o abrigo de uma ilha para que o pudessem louvar na data de Sua Paixão e Morte na Cruz?

   Então, a Providência Divina se amerceou (Mies e fez com que lhes surgisse pela proa, no verde deserto do mar, o escuro ilhéu Jasconius, sobre cujo dorso realizaram as cerimônias do culto. Mas, oh milagre magnífico! O ilhéu nada mais era do que uma baleia gigantesca, como a das viagens de Sindbad o marítimo, que ficara boiando quietinha para não perturbar a liturgia dos monges.
   Longos dias e longas noites de navegação levaram o santo à Ilha dos Pombos ou dos Pássaros, os quais não passavam de anjos decaídos e castigados em tão humilde condição. Os pássaros tiveram sempre notável papel nos ciclos de lendas guerreiras e mitológicas dos celtas desde a mais alta antiguidade. Sob a forma de pássaros unidos por uma canga de ouro ou prata, fugiam os amantes perseguidos que os deuses protegiam. Em pássaros se metamorfoseavam as bruxas e bruxos poderosos. Os próprios deuses neles se encarnavam e eram os núncios dos prodígios.

   Depois da Ilha dos Pássaros, abordaram os peregrinos com espanto a Ilha dosFrutos ou dos Pomos, povoada de grifos e gigantes. Sente-se claramente no episódio a reminiscência da lenda pagã do Jardim das Hespéridas, com seus pomos de ouro, guardado pelo dragão e violado por Hércules. Os elementos míticos são, positivamente, os mesmos.

   A viagem de São Brandão é muito interessante, sobretudo porque recapitula um a um diversos mitos antigos. Na Ilha da Abadia da Eterna Mocidade e do Silêncio, onde se demorou algum tempo, se vê bem a lenda da Fonte de Juventa que os aventureiros do século XVI ainda haveriam de procurar. Vinha de longe, da IlhaJunonia, de Juno e dos Jovens, ao largo da África, citada em Statius Sebosus. O silêncio era o mesmo silêncio a que se referem todos os cantos, lendas e mabinogion celtas como pairando nos lugares paradisíacos onde repousam os mortos na eterna mocidade da vida imortal.
   Noutro dia, em outra ilhota, São Brandão deparou Judas, amarrado a um rochedo, como Prometeu, açoitado cruelmente pelas ondas furiosas e guardado pelo demônio Leviatã.
   Noutro, contemplou a Ilha da Forja do Diabo, crepitando em fogo, alanceando o espaço com as suas labaredas, borrando de longe o céu com o rubro de sua ignição. A Ilha do Inferno de certas cartas medievais. Alguns julgam ver nela a ilha de Tenerife com seu vulcão.
   Noutro ainda, de longe lhe apareceu, boiando calmamente sobre a vastidão do mar, uma igreja de cristal. Era uma grande forma branca, coroada de rendilhamentos, que deslizava sobre a líquida planície levemente ondulada, sem o menor rumor. Um ice-berg?

   São Brandão e seus companheiros navegaram muito tempo mar afora, rumo a oeste, alimentando-se de orações, como em verdadeiro Laus Perennis, até topar a Ilha Deliciosa, habitada pelo eremita Paulo, talvez o mesmo monge Mernoc, que contava 140 anos de idade e só se alimentava de peixe e água pura. Era a última etapa para se atingir a Terra da Promissão.
   O monstro Jasconius, talvez a mesma baleia que guardara o profeta Jonas em seu seio, reapareceu à face do mar e guiou-os até a maravilhosa Terra da Promissão dos Santos. Maravilhosa de fato! "Grandes bosques, rios, prados floridos para todos os lados. Bosques cheios de pássaros. Rios cheios de peixes. Prados cheios de animais isentos do pecado. Gamos brincando com lobos. Leoas amamentando cordeiros. Ar suave e perfumado. Nem uma nuvem velando a doce claridade do sol. Macieiras sempre cobertas de flores, como se fosse abril; sempre cobertas de frutos, como se fosse setembro".
   Demoraram oito anos felicíssimos na Terra da Promissão e voltaram, não mais guiados pelo monstro Jasconius, mas por um pássaro lindo e amável. Contaram aos povos da Irlanda as maravilhas que os tinham deixado extasiados. A grande aventura de São Brandão, do Immram Brenam, seduziu todas  as imaginações. Houve quem tentasse imitá-lo sem proveito e mesmo quem pretendesse ir viver na dadivosa região de que falava. Mas, como se após o regresso do glorioso santo e de seus companheiros o mar a houvesse tragado, nunca mais foi possível encontrá-la.

   Assim, nasceu em meados da Idade Média a lenda atlântica da ilha Não-EncontradaNunca-Encontrada ou Perdida.
   Nessa velha lenda celta, enfartada de paganismo no seu cristianismo nascente, sente-se de modo admirável, a par das reminiscências de mitos antiquíssimos como os de Prometeu e do Jardim das Hespéridas, todos os elementos das arriscadas navegações boreais dos antigos vikings e galeses: no fundo do horizonte até aonde se estende a translucidez do mar, o espectro alvíssimo do banco de gelos eternos, murando o caminho do Polo e desafiando no mistério de seu eterno silêncio a curiosidade humana; as linhas denteadas e rendilhadas de gelo dos altos e brancos icebergs que deslizam sobre o espelho do oceano, como catedrais que se vão silenciosamente derretendo; os cetáceos monstruosos que acompanham as embarcações na sua derrota dias inteiros e cujo lombo lustroso e escuro surge por vezes à flor das águas como uma ilha miraculosa que emerge; as cortinas impenetráveis dos nevoeiros que impedem a visão e estorvam a marcha, porque não se sabe mais para onde se caminha; e, sempre, no fundo de tudo, no âmago, a eterna visão de "cette Atlantide qui s'étend, coupée par un large fleuve, quelque part au delà des mers du couchant".


   Este rio cortava também a Antilia nos antigos planisférios e portulanos. Em alguns, mais recentes, aparece cortando a nossa terra sob o nome de Rio de Brasil, nos 17° de latitude, defrontando Porto Seguro, como, por exemplo, no planisfério de Cantino.
   A lenda de São Brandão chegou a Portugal no século XVI, quando se refere o curioso achado duma terra chamada Ilha do Brasil de Brandam. A expressão Brasil de Brandam traduz origem direta céltica. Não pode haver dúvida a esse respeito.
   Na língua celta, a Terra Repromissionis Sanctorum das versões latinas da Peregrinatio Sancti Brandani, se chama textualmente Ho Brasile, o que significa tão somente: Terra FelizTerra da FelicidadeTerra da Promissão. Essa terra ou ilha de nome Ho Brasile foi achada por Brennam ou Brandão. Naturalmente, pois, Ho Brasile de Brennam teria de ficar sendo para todos os efeitos — Brasil de Brandão.
   Não sabemos do que possa ser mais claro e mais lógico do que isso.
   Daí talvez aquele trecho que muitos autores e de peso consideram lendário ou fantasioso, porém outros citam como verdadeiro, da pretensa carta de Pedro Alvares Cabral a El Rei D. Manuel o Venturoso, a eterna visão de "cette Atlantide qui s'étend, coupée par un large fleuve, quelque part au delà des mers du couchant".


   Este rio cortava também a Antilia nos antigos planisférios e portulanos. Em alguns, mais recentes, aparece cortando a nossa terra sob o nome de Rio de Brasil, nos 17° de latitude, defrontando Porto Seguro, como, por exemplo, no planisfério de Cantino.
   A lenda de São Brandão chegou a Portugal no século XVI, quando se refere o curioso achado duma terra chamada Ilha do Brasil de Brandam. A expressão Brasil de Brandam traduz origem direta céltica. Não pode haver dúvida a esse respeito.
   Na língua celta, a Terra Repromissionis Sanctorum das versões latinas da Peregrinatio Sancti Brandani, se chama textualmente Ho Brasile, o que significa tão somente: Terra FelizTerra da FelicidadeTerra da Promissão. Essa terra ou ilha de nome Ho Brasile foi achada por Brennam ou Brandão. Naturalmente, pois, Ho Brasile de Brennam teria de ficar sendo para todos os efeitos — Brasil de Brandão.
   Não sabemos do que possa ser mais claro e mais lógico do que isso.
   Daí talvez aquele trecho que muitos autores e de peso consideram lendário ou fantasioso, porém outros citam como verdadeiro, da pretensa carta de Pedro Alvares Cabral a El Rei D. Manuel o Venturoso,  que se afirma ter sido encontrada entre os papéis de Lord Stuart e em que o capitão-mor da Armada se refere à Terra Nova onde chantara a Cruz como aquela "que os antigos chamavam S. Brandam ou Brasil".

   Verdade ou não, não deixa a aproximação da palavra Brasil com a ideia de Terra da Promissão e de Terra da Felicidade de ser bastante curiosa, sobretudo através da língua celta. Veremos bem por que, no desenrolar destes estudos sobre o batismo do nosso país. PAG.75

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